A Academia Real das Sciencias, havendo de dar á luz as suas Memorias Economicas, teve a honra de as dedicar a S. MAGESTADE, a RAINHA minha Senhora. Permitta V. ALTEZA, que pela primeira vez, que em Corpo de Sciencia apparecem Memorias sobre a Litteratura Portugueza, a mesma Academia as offereça a V. ALTEZA REAL, de quem espera igual Mercê, e Protecçaõ.
DEOS guarde a Real Pessoa de V. ALTEZA, como lhe pedimos todos, e havemos mister.
No tempo em que a Academia Real das Sciencias se formou, e fixou para assumto dos trabalhos de huma das suas tres Classes, a Litteratura Portugueza, varios fôraõ no Publico os juizos, e mui vagas as idéas sobre o que por este nome devia entender-se. Ainda entre as pessoas instruidas, as inclinações a particulares assumptos, reguláraõ os juizos, e modificáraõ as idéas, que cada hum formou. Huns julgáraõ, que o estudo da Linguagem, que por mais pura era havida; outros que a Bibliografia nacional; outros que a Poesia; outros por fim varios outros objectos constituiaõ, o que a Academia designava por Litteratura Portugueza. Os juizos precipitados da gente sabia, a mesma sciencia os rectifica; mas a experiencia de muitos annos tem nostrado, que he necessario dar á Mocidade, que tantas esperanças vai dando, huma definiçaõ, do que por Litteratura Portugueza se entende, e de quaes sejaõ os limites naturaes deste genero de saber, que a Academia julgou assaz vasto, e importante para occupar inteiramente huma das suas Classes, assáz analogo nos seus varios ramos para constituir huma só sciencia, e assaz separado das outras para merecer hum nome proprio.
De todos os ramos de erudiçaõ, que fôrmaõ a Litteratura, nenhum póde ser proprio e particular a hum povo, senaõ a lingua que falla, e a historia do que lhe aconteceo. Huma e outra lhe pertencem exclusivamente, e ambas entre si se soccorrem. Nem será facil conhecer a formaçaõ, e analogia da sua lingua, sem conhecer as revoluções que lhe deraõ origem, e a guiáraõ, por assim dizer, na derrota que seguio desde seus principios até ao estado em que se acha; nem tambem as suas antiguidades podem ser cabalmente investigadas, sem hum perfeito conhecimento da sua linguagem, nas varias épocas da sua existencia. Saõ por conseguinte a Lingua, e a Historia Portugueza, consideradas em todos os possiveis aspectos, e relações, os dous objectos que constituem, o que a Academia quiz entender por Litteratura Portugueza; objectos naõ só entre si analogos, mas tambem diversos, e separados de toda a outra erudiçaõ, que, ou compete a póvos estranhos, ou pela generalidade dos seus assumptos, pertence a todo o genero humano sem respeito particular a naçaõ alguma.
O muito, que materias taõ nossas devem interessar-nos, o proveito, que da sua perfeiçaõ se nos segue, e o desejo de fomentar o amor da Patria, que se a todas as nações he util, he na nossa pequenhez necessario, saõ as causas, que movêraõ a Academia a colligir as Memorias sobre este assumpto, em hum corpo separado, a que este volume dá principio.