MEMORIAS

DE

LITTERATURA

PORTUGUEZA,

PUBLICADAS

PELA

ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS

DE LISBOA.


Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria.



TOMO I.

LISBOA
NA OFFICINA DA MESMA ACADEMIA.
ANNO M. DCC. XCII.
Com licença da Real Meza da Commissaõ Geral sobre o Exame, e Censura dos Livros.





Reprinted 1980 by Kraus-Thomson Organization GmbH, München
Unaltered Reprint
Printed in the Federal Republic of Germany








SENHOR.






A Academia Real das Sciencias, havendo de dar á luz as suas Memorias Economicas, teve a honra de as dedicar a S. MAGESTADE, a RAINHA minha Senhora. Permitta V. ALTEZA, que pela primeira vez, que em Corpo de Sciencia apparecem Memorias sobre a Litteratura Portugueza, a mesma Academia as offereça a V. ALTEZA REAL, de quem espera igual Mercê, e Protecçaõ.

DEOS guarde a Real Pessoa de V. ALTEZA, como lhe pedimos todos, e havemos mister.

DE V. ALTEZA REAL

seu mais fiel, e reverente Vassallo

Duque de Lafões.


PROLOGO


No tempo em que a Academia Real das Sciencias se formou, e fixou para assumto dos trabalhos de huma das suas tres Classes, a Litteratura Portugueza, varios fôraõ no Publico os juizos, e mui vagas as idéas sobre o que por este nome devia entender-se. Ainda entre as pessoas instruidas, as inclinações a particulares assumptos, reguláraõ os juizos, e modificáraõ as idéas, que cada hum formou. Huns julgáraõ, que o estudo da Linguagem, que por mais pura era havida; outros que a Bibliografia nacional; outros que a Poesia; outros por fim varios outros objectos constituiaõ, o que a Academia designava por Litteratura Portugueza. Os juizos precipitados da gente sabia, a mesma sciencia os rectifica; mas a experiencia de muitos annos tem nostrado, que he necessario dar á Mocidade, que tantas esperanças vai dando, huma definiçaõ, do que por Litteratura Portugueza se entende, e de quaes sejaõ os limites naturaes deste genero de saber, que a Academia julgou assaz vasto, e importante para occupar inteiramente huma das suas Classes, assáz analogo nos seus varios ramos para constituir huma só sciencia, e assaz separado das outras para merecer hum nome proprio.

II.

De todos os ramos de erudiçaõ, que fôrmaõ a Litteratura, nenhum póde ser proprio e particular a hum povo, senaõ a lingua que falla, e a historia do que lhe aconteceo. Huma e outra lhe pertencem exclusivamente, e ambas entre si se soccorrem. Nem será facil conhecer a formaçaõ, e analogia da sua lingua, sem conhecer as revoluções que lhe deraõ origem, e a guiáraõ, por assim dizer, na derrota que seguio desde seus principios até ao estado em que se acha; nem tambem as suas antiguidades podem ser cabalmente investigadas, sem hum perfeito conhecimento da sua linguagem, nas varias épocas da sua existencia. Saõ por conseguinte a Lingua, e a Historia Portugueza, consideradas em todos os possiveis aspectos, e relações, os dous objectos que constituem, o que a Academia quiz entender por Litteratura Portugueza; objectos naõ só entre si analogos, mas tambem diversos, e separados de toda a outra erudiçaõ, que, ou compete a póvos estranhos, ou pela generalidade dos seus assumptos, pertence a todo o genero humano sem respeito particular a naçaõ alguma.

III.

O muito, que materias taõ nossas devem interessar-nos, o proveito, que da sua perfeiçaõ se nos segue, e o desejo de fomentar o amor da Patria, que se a todas as nações he util, he na nossa pequenhez necessario, saõ as causas, que movêraõ a Academia a colligir as Memorias sobre este assumpto, em hum corpo separado, a que este volume dá principio.


Memorias de litteratura portugueza.
publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa.
Tomo I.
Lisboa
ANNO M.DCC.XCII. [1792]

Rutgers University Libraries
AS304.L4 1980 V.1-2

Omnipædia Polyglotta
Francisco López Rodríguez
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