BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

Proprietario--MELLO D'AZEVEDO


CHRONICA

DE

EL-REI D. AFFONSO V

POR

Ruy de Pina

VOL. I



ESCRIPTORIO
147=RUA DOS RETROZEIROS=147
LISBOA

1901







Duas palavras de introducção


El-Rei D. Manuel encomendou com grande efficacia a Ruy de Pina a chronica de D. Affonso V. E elle escreveu baseado em informações e nos documentos que poude alcançar, com uma sinceridade notavel em chronista de palacio occupando cargos de confiança regia.

Parcial todavia, pouco inclinado a cousas de Hespanha e da nobreza, conta-nos a historia d'esse periodo de fórma que parece preparar o espirito do leitor para as grandes luctas do reinado seguinte.

A historia da épocha de D. Affonso V importa ao estudo da nacionalidade portugueza em qualquer ponto de vista. Affirma-se a auctoridade real, apezar das prodigalidades do rei, a independencia da nação em combates rijos, a expansão ultramarina define-se com o arrojo dos navegantes e dos homens de guerra, a cultura dos espiritos sóbe, os costumes policiam-se, attende-se a melhoramentos materiaes nas povoações.

A propria figura do rei desperta vivamente a attenção; os seus primeiros annos passaram num meio agitado, difficil, triste talvez, pelas luctas palacianas, mas util para a formação de espirito culto pela frequencia, provavel, de homens superiores como os infantes D. Pedro e D. Henrique. Pelo que nos conta Ruy de Pina foi lastima que Affonso V fosse rei, porque era bom de mais, com sua parte de phantasia mansa.

Era um sereno, de piadosa condição familiar, grande amador de musica e de livros, e tambem de emprezas arriscadas.

Quando a Excellente Senhora professou, grassava em algumas cidades do paiz o contagio com grande intensidade, elle desconsolado quiz deixar a governança, queria ser leigo no seu mosteiro do Varatojo.

Como era generoso e pouco calculista, sem sentir, pouco a pouco, foi accumulando de mercês certos fidalgos insaciaveis, o que originou depois a grande lucta dos primeiros annos de João II.

N'esses quadros agitados destacam-se figuras principaes como o infante D. Pedro, o das sete partidas, e D. Henrique o navegador, sempre com a sua idéa fixa de descobrir terras, os condes de Viana, e de Avranches, grandes senhores, e aquelle singular bispo D. Garcia de Menezes tão brilhante orador e guerreiro que tristemente encerrou a sua vida.

Outros vultos de raro perfil movimentam ainda a épocha, D. Pedro o rei intruso de Aragão, filho do infante D. Pedro, erudito, collecionador de livros e medalhas, o duque de Borgonha, a Excellente Senhora. No meio das luctas e intrigas estrondea o casamento de D. Leonor. Depois das gloriosas jornadas de Alcacer, Tanger, Anafé e Arzilla, a ida para França.

O chronista não esquece os movimentos populares, as luctas na cidade de Lisboa, as uniões e alvoroços; nem a lucta contra o Turco que em 1480 quasi se assenhoreou do Mediterraneo.

Hoje conhecemos outros documentos, os antecedentes das Alfarrobeira estão mais esclarecidos, papeis de aleivosia como o testemunho do escudeiro João Rodrigues correm impressos.

Ha documentos tambem para o modo de viver da épocha que em geral não mereceram attenção aos chronistas, os que dizem respeito a costumes, a questões economicas, ao direito. A publicação das Ordenações, começadas em tempo de João I.° é facto capital. Em chronicas francezas encontram-se noticias de valor, ainda não approveitadas. Finalmente será preciso estudar noutra parte, e hoje ha muitos elementos publicados, o admiravel esforço do infante de Sagres, e da sua gente, n'este periodo, nos gloriosos descobrimentos dos novos caminhos maritimos, dos archipelagos do Atlantico revelados successivamente.

G. Pereira.





Chronica de El-Rei D. Affonso V
por Ruy de Pina
Vol. I.
Escriptorio
Lisboa
1901

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DP596.P5 V.1

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Francisco López Rodríguez
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