AMOR DE PERDIÇÃO
(MEMÓRIAS DUMA FAMÍLIA)
POR
CAMILO CASTELO BRANCO
Edição popular revista por Augusto C. Pires de Lima
Quem viu jamais vida amorosa, que
não a visse afogada nas lágrimas
do desastre ou do arrependimento?
D. FRANCISCO MANUEL
(Espanáfora Amorosa)
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Ao
Il.mo e Ex.mo Sr.
António Maria de Fontes Pereira de Melo
DEDICA
O AUTOR
Il.mo e Ex.mo Sr.
Há-de pensar muita gente que V. Ex.a não dá valor algum a este livro, que a minha gratidão lhe dedica, porque muita gente está persuadida que ministros do Estado não lêem novelas. É um engano. Uma vez, ouvi eu um colega de V. Ex.a discorrer no parlamento acerca de caminhos de ferro. Com tanto engenho o fazia, de tantas flores matizara aquela matéria, que me deleitou ouvi-lo. Na noite desse dia, encontrei o colega de V. Ex.a a ler a "Fanny", aquella "Fanny" que sabia tanto de caminhos de ferro como eu.
Que V. Ex.a tem romances na sua biblioteca, é convicção minha. Que lá tem alguns que não leu, porque o tempo lhe falece, e outros porque não merecem tempo, também o creio. Dê V. Ex.a, no lote dos segundos, um lugar a este livro, e terá assim V. Ex.a significado que o recebe e aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado de V. Ex.a.
Na cadeia da Relação do Porto,
aos 24 de Setembro de 1861.
CAMILO CASTELO BRANCO
Prefácio da segunda edição
Nas Memórias do Cárcere, referindo-me ao romance que novamente se imprime, escrevi estas linhas:
"O romance, escrito em seguimento daquele, (O Romance de um Homem Rico) foi o Amor de Perdição. Desde menino, ouvia eu contar a triste história de meu tio paterno Simão António Botelho. Minha tia, irmã dele, solicitada por minha curiosidade, estava sempre pronta a repetir o facto aligado à sua mocidade. Lembrou-me naturalmente, na cadeia, muitas vezes, meu tio, que ali deveria estar inscrito no livro das entradas no cárcere e no das saídas para o degredo. Folheei os livros desde os de 1800, e achei a notícia com pouca fadiga, e alvoroços de contentamento, como se em minha alçada estivesse adornar-lhe a memória como recompensa das suas trágicas e afrontosas dores em vida tão breve. Sabia eu que em casa de minha irmã estavam acantoados uns maços de papéis antigos, tendentes a esclarecer a nebulosa história de meu tio. Pedi aos contemporâneos que o conheceram notícias e miudezas, a fim de entrar de consciência naquele trabalho. Escrevi o romance em quinze dias, os mais atormentados de minha vida. Tão horrorizada tenho deles a memória, que nunca mais abrirei o Amor de Perdição, nem lhe passarei a lima sobre os defeitos nas edições futuras, se é que não saiu tolhiço incorrigível da primeira. Não sei se lá digo que meu tio Simão chorava, e menos sei se o leitor chorou com ele. De mim lhe juro que..."
Vão passados quase dois anos, depois que protestei não mais abrir este romance. No decurso de dois anos tive de afrontar-me com uns infortúnios menos vulgares que a privação da liberdade, e esqueci os horrores dos outros, a ponto de os recordar sem espanto, e simplesmente como fuzis indispensáveis nesta minha cadeia, em que já me vou retorcendo e saboreando com infernal deleitação. Abri o livro, como se o tivesse escrito nos dias mais festivos da minha mocidade; se bem que eu falo em dias de mocidade por me dizer a minha certidão de idade que eu já fui moço; que, no tocante a festas de juventude, estou agora esperando que elas venham no Outono, e é de crer que venham, acamaradas com o reumatismo e gota.
Este livro, cujo êxito se me antolhava mau, quando eu o ia escrevendo, teve uma recepção de primazia sobre todos os seus irmãos. Movia-me à desconfiança o ser ele triste, sem interpolação de risos, sombrio, e rematado por catástrofe de confranger o ânimo dos leitores, que se interessam na boa sorte de uns, e no castigo de outros personagens. Em honra e louvor das pessoas que estimaram o meu livro, confessarei agradàvelmente que julguei mal delas. Não aprovo a qualificação; mas a crítica escrita conformou-se com a opinião da maioria, que antepõe o Amor de Perdição ao Romance de um Homem Rico e às Estrelas Propícias.
É grande parte neste favorável, embora insustentável, juízo, a rapidez das peripécias, a derivação concisa do diálogo para os pontos essenciais do enredo, ausência de divagações filosóficas, a lhaneza da linguagem e desartificio das locuções. Isto, enquanto a mim, não se estribar em outras recomendações mais sólidas deve ter uma voga muito pouco duradoura.
Estou quase convencido de que o romance, tendendo a apelar da iníqua sentença que o condena a fulgir e apagar-se, tem de firmar sua duração em alguma espécie de utilidade, tal como o estudo da alma, ou a pureza do dizer. E dou mais pelo segundo merecimento; que a alma está sobejamente estudada e desvelada nas literaturas antigas, em nome e por amor das quais muita gente abomina o romance moderno, e jura morrer sem ter lido o melhor do mais apregoado autor. Dou-me por suspeito nesta questão. Graças a Deus, ainda não escrevi duas linhas a meu favor, nem sequer nas locais do jornalismo. Até escrupulizo em dizer que devem ler-se romances, não vão cuidar que eu recomendo os meus.
É certo que tenho querido imprimir em alguns de meus livros o cunho da utilidade com o valor da linguagem sã e ajeitada à expressão de ideias, que pareciam estranhas, como de feito eram, e não se nos deparam nos escritos dos Sousas, Lucenas e Bernardes. Em verdade, foi isto mirar muito longe com vista muito curta; assim mesmo, fiz o que pude; e neste livro direi que fiz menos do que podia. Nos quinze atormentados dias em que o escrevi, faleceu-me o vagar e contenção que requer o acepilhar e brunir períodos. O que eu queria era afogar as horas, e afogar talvez a necessidade de vender o meu tempo, as minhas meditações silenciosas, e o direito de me espreguiçar como toda a gente, e o prazer ainda de ser tão lustroso na linguagem, quanto, em diversas circunstâncias, podia ser.
O que então não fiz, também agora o não faço, senão em pouquíssimo e muito de corrida. O livro agradou como está. Seria desacerto e ingratidão demudar sensivelmente, quer na essência, quer na compostura, o que, tal qual é, foi bem recebido.
Porto.--Setembro de 1863
CAMILO CASTELO BRANCO
Prefácio da quinta edição
Publiquei, há vinte e dois anos, o romance Onde Está a Felicidade?--Pouco depois, Alexandre Herculano, republicando as Lendas e Narrativas, escrevia na Advertência: "...Nestes quinze ou vinte anos, criou-se uma literatura, e pode dizer-se que não há ano que não lhe traga um progresso. Desde as Lendas e Narrativas até o livro Onde Está a Felicidade? que vasto espaço transposto?"
Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5.a edição me parece um êxito fenomenal e extralusitano, com O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio, confesso, voluntàriamente resignado, que para o esplendor destes dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e umas ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Deizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas, agora, como indemnização, faz rir: tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de Almeida.
E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofarava com lágrimas românticas.
Faz-me tristeza pensar que eu floresci nesta futilidade da novela, quando as dores da alma podiam ser descritas sem grande desaire da gramática e da decência. Usava-se então a retórica de preferência ao calão. O escritor antepunha a frequência de Quintiliano à do Colete-encarnado.. A gente imaginava que os alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje com os punhos arregaçados para espremer o pus de muitas escrófulas à face do leitor! Naquele tempo, enflorava-se a pástula; agora, a carne com vareja pendura-se na escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se narcisar num espelho fiel.
Pois que estou a dobrar o cabo tormentório da morte, já não verei onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novíssima. Como a honestidade é a alma da vida civil, e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por efeito de uma grande evolução-rigolboche. A lógica diz isto; mas a Providência, que usa mais da metafísica que da lógica, provàvelmente fará outra coisa. Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XX, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.a edição do Amor de Perdição quase esgotada.
S. Miguel de Seide,
8 de Fevereiro de 1879
CAMILO CASTELO BRANCO
Amor de Perdição
Camilo Castelo Branco
Porto Editora, Lda.
Pôrto
Empresa Fluminense, Lda.
Lisboa
Rutgers University Libraries
PQ9261.C3A7
Omnipædia Polyglotta
Francisco López Rodríguez
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